Mecanismos de defesa

Imagine a seguinte cena sombria: você acorda em um lugar estranho, sem saber exatamente de onde veio e o que faz ali. Meio atordoado ainda, percebe a sua volta seres gigantes apontando pra você e falando em uma língua desconhecida. Sem saber onde está, procura por segurança quando, vindo em sua direção, uma criatura estranha e peluda, digna de uma quimera mitológica, se aproxima ameaçadoramente mostrando seus dentes. Tomado por pânico e desespero, foge aterrorizado deste local sinistro…

Embora pareça o roteiro de um filme de suspense, alguns de nós podem ter passado por isso: quando temos 1 ou 2 anos de idade, dormimos com frequência enquanto acompanhamos nossos pais. Quando acordamos, não fazemos ideia de onde estamos e quem são os “gigantes” ao nosso redor. E pior ainda, quando nunca vimos um cão na vida, qualquer labrador babão, por mais dócil que seja, parece uma ameaçadora criatura de outro mundo!

Essa situação aparentemente insignificante para um adulto pode ser suficiente para criar um trauma em uma criança, que fica registrado em sua mente na forma de uma crença que diz algo do tipo “cães são seres ameaçadores”. E qual a reação desta pessoa ao se defrontar, no presente, com uma cena semelhante? O mesmo pânico irracional da infância, que ficou impresso no inconsciente como um MECANISMO DE DEFESA.

Segundo a psicologia, todos temos estes mecanismos, e são sempre criados em situações de extrema intensidade emocional, situações interpretadas por nós como ameaçadoras ou perigosas – embora, muitas vezes, este fosse apenas um entre muitos pontos de vista.

O mecanismo de defesa é um subterfúgio do inconsciente que dispara um alarme procurando nos tirar de situações difíceis ou perigosas, embora este perigo muitas vezes seja apenas uma projeção negativa do passado; e justamente por reviver estados emocionais, muitas vezes acabamos recriando situações semelhantes àquelas que originaram o trauma. E por tratar-se de um sistema inconsciente, raramente percebemos o que ocorre, apenas colhemos os resultados negativos do processo.

Abaixo, transcrevi alguns destes mecanismos segundo a psicologia de Freud – embora eu não seja psicólogo e meu trabalho tenha uma abordagem mais prática e holística, tenho certeza que ler esta descrição e seus exemplos vai lhe dar alguns insights interessantes (comentários em negrito são meus):

  1. REPRESSÃO: É a tentativa de fazer desaparecer da mente os impulsos ameaçadores ou sentimentos e desejos vistos como inoportunos e desagradáveis. Freud considerava essa a rainha das defesas e comuns a quase todas pessoas. Ex: quando a pessoa não se dá conta que está com raiva, mesmo que seja evidente pela fisionomia. Reprimir emoções nos torna “aceitáveis” socialmente, queridos ou amados – embora também nos transforme numa panela de pressão!
  2. RACIONALIZAÇÃO: sujeito procura apresentar uma explicação coerente do ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral. Ex: quando alguém tenta explicar sua obsessão por doenças dizendo que se preocupa com a saúde, ou sua obsessão por dinheiro dizendo que faz o bem pelo próximo. São as justificativas.
  3. PROJEÇÃO: quando um impulso muito inaceitável é atribuído a outra pessoa. Ex: quando é difícil aceitar que somos invejosos e passamos a achar que todos nos invejam ou quando uma pessoa está com raiva e passa a achar que todos estão contra ela. Já falamos sobre as projeções do ego anteriormente, quando apontamos o dedo para outras pessoas sem perceber que a origem da falha somos nós.
  4. DESLOCAMENTO: é quando um sentimento ou impulso é transferido de uma parte para um todo e vice-versa. Ex: quando a mulher tem uma experiência ruim com um homem e diz que todos os homens não prestam. Forma-se uma crença negativa, um generalismo.
  5. ANULAÇÃO: quando a pessoa tem uma ação que visa apagar o rastro do impulso ou ação anterior, como num ato mágico. Ex: bater na madeira quando se tem um desejo inaceitável ou faz o sinal da cruz quando tem um pensamento ruim; pessoas que acham que o pedido de desculpa deveria anular imediatamente a ação destrutiva anterior.
  6. FANTASIA: quando a pessoa cria uma imagem ou história que traga uma satisfação de um impulso originariamente frustrado. Ex: fantasias com a vizinha impossível. Há muitas fantasias em nossa mente, e nem sempre nos damos conta destas até que elas se chocam com a realidade (que nunca nos engana)…
  7. IDENTIFICAÇÃO: é quando absorvemos (ou copiamos) um comportamento de outra pessoa em nossa própria personalidade. Ex: quando um filho cresce e age da mesma maneira opressiva que os pais (muito comum); ou imitamos um líder por acreditar que seremos superiores desta forma.
  8. REGRESSÃO: é quando a mente regride a estágios mais primitivos. Ex: quando uma pessoa fica com ciúme ou brava e age de forma birrenta como uma criança de 3 anos. Quem não conhece alguém que tem acessos de comportamento infantil?
  9. ISOLAMENTO: é quando um sentimento fica separado ou desligado do acontecimento original. Ex: quando fomos agredidos por alguém e depois de um tempo só sentimos uma raiva que não sabemos do que. Ou quando contamos um acontecimento traumático sem nenhuma (aparente) emoção: isso ocorre com pessoas que tem dificuldade de acessar emoções traumáticas ou dolorosas.
  10. NEGAÇÃO: é quando se bloqueia o reconhecimento de uma verdade incontestável (dolorosa ou inoportunamente prazerosa). Ex: pais que se recusam a lidar com a maturidade dos filhos, ou simplesmente perceber que cresceram.
  11. SOMATIZAÇÃO: quando a pessoa transfere para o corpo (em forma de dores e doenças) sentimentos e desejos originalmente inaceitáveis. Ex: pessoas que estão sempre doentes porque não admitem suas carências afetivas. Em minha visão, tudo em nossa vida é um grande processo de somatização.
  12. FORMAÇÃO REATIVA: é quando se adota um comportamento exatamente oposto ao impulso original. Ex: mães superprotetoras que compensam uma culpa ou raiva inconsciente contra o incômodo e a intrusão dos filhos em sua vida; pessoa grudenta que não percebe quão raivosa está daquela que diz amar. Ambos denotam medo da perda.
  13. COMPENSAÇÃO: quando a pessoa hipervaloriza uma característica que originalmente considera deficitária. Ex: uma pessoa que se sente inferiorizada e tenta fazer compensações financeiras ou excessivamente afetivas. Pessoas muito carentes passam por este processo, tentando “comprar” a falta de amor que sentem.
  14. EXPIAÇÃO: quando uma pessoa infringe um padecimento físico, emocional ou social para “pagar” algum pensamento ou ação que considerou inaceitável. Ex: quando uma pessoa tem uma postura ruim (inconsciente) no trabalho e é mandada embora como forma de pagar por ter agido mal com uma pessoa querida. Aqui encontramos processos de culpas e auto sabotagem inconscientes.
  15. INTROJEÇÃO: quando a pessoa traz para si os sentimentos e traços de outra coisa ou pessoa. Ex: quando está diante de uma pessoa importante e ela própria se atribui importância e brilhantismo pessoal sem o ser (comum nos puxa-sacos). Ou um religioso que basta estar num templo para se sentir instantaneamente um ser especial. Este é o motivo do desejo mundano de estar perto de pessoas “famosas”: é uma maneira se sentir-se superior.
  16. IDEALIZAÇÃO: quando uma característica ou qualidade de uma coisa ou pessoa é levado à perfeição como forma de obscurecer traços desagradáveis. Ex: pessoa que iludidamente atribui uma perfeição na pessoa amada (muito comum na fase de paixão). Esta também é uma forma de sentir-se superior estando próximo de alguém que julgamos “perfeito.

Como você já deve ter percebido, existe uma simbiose entre mecanismos de defesa, crenças limitantes e bloqueios emocionais. E se estudarmos cada um dos mencionados com atenção, encontraremos na raiz de todos traços da necessidade de ser amado, aprovado e reconhecido.

Todo mecanismo é um condicionamento, uma reação inconsciente ao mundo exterior – e onde existe um condicionamento, existe uma limitação, uma visão parcial da realidade, uma escravidão sem muros. Conhecer os nossos (e isto faz parte do autoconhecimento) é parte da jornada para o nosso despertar; afinal, ninguém pode libertar-se sem conhecer aquilo que o oprime.

Mecanismos de defesa não curam: dizer que defesas o fortalecem é um mito. Não é possível ficar na defensiva e ser livre. Não é possível reprimir emoções e ser íntegro.

A plenitude encontra-se num degrau superior, em um elemento chamado VERDADE – conheça-a, e ela vos libertará. Mas este é o tema para outro artigo.

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Somos seres essencialmente espirituais, vivendo uma experiência material. E nessa extraordinária jornada, tudo vale a pena ser vivido!...
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