A ilusão do tempo

A Ilusão do tempo

Você já se deu conta de que o tempo do nosso relógio parece cada vez menor? É um corre-corre danado todo dia e parece que nada do que façamos muda esta sensação. Algumas pessoas dizem que seu dia devia ter 30 ou 40h pra que dessem conta de fazer tudo o que gostariam…

Até pouco tempo atrás esse era um fenômeno observado apenas em grandes cidades, mas atualmente mesmo pessoas simples do campo percebem que quando eram crianças tudo parecia mais lento do que é hoje.

Existem duas explicações para este fenômeno, e considero ambas parte do mesmo processo.

A primeira diz que nosso mundo está prestes a dar um salto evolutivo e entrar em nova etapa de desenvolvimento consciencial. Embora esta explicação tenha tido origem em algumas correntes filosófico-espiritualistas, a física quântica – o grande elo entre a ciência e a espiritualidade – tem respaldado esta teoria. Uma amostra simples da realidade deste fato é a velocidade com que a tecnologia tem revolucionado nossas vidas, e isso é facilmente observável principalmente no que se refere à comunicação e computadores.

A segunda explicação, que é a que nos interessa agora, embora seja influenciada pela anterior, não é nada poética e acontece a cada segundo dentro de cada um de nós: é a aceleração do fluxo dos pensamentos. Este fenômeno também pode ser constatado observando-se a grande dificuldade de mantermos nossa mente no tempo presente, silenciosa, totalmente atenta ao que acontece neste exato momento de nossas vidas. Este desvio é, resumidamente, o responsável por praticamente todas as nossas neuroses e, portanto, está diretamente relacionado ao lamentável estado de tensão interior e permanente insatisfação em que nos encontramos. Vamos entender melhor:

A Síndrome de Branca de Neve

Quem já foi criança um dia e teve a oportunidade de assistir ao desenho citado, aquele dos anos 50 que foi o primeiro longa metragem da Disney, seguramente vai lembrar-se do momento em que ela canta enquanto faz a faxina na casa dos anões: “um dia, eu serei feliz…”.

Embora seja só um desenho infantil, nos mesmos moldes de qualquer filme atual, ele é um reflexo do comportamento das massas, e nos dá a oportunidade de observar alguns erros básicos na percepção humana: fazer uma coisa enquanto pensa em outra; e sonhar com um futuro feliz.

Chamo de Síndrome de Branca de Neve a ilusão de que a felicidade será causada por um evento futuro em algum momento de nossas vidas. Esta felicidade pode vir através de um relacionamento, do sucesso, do dinheiro; mas é sempre algo que “está lá adiante” e que algum dia acontecerá. Em nossas fantasias, é algo que nos fará sentir mais ou melhores do que somos hoje. Isso divide a pessoa por dentro, porque você está AQUI, mas gostaria de estar LÁ, fazendo com que nossa vida escorra entre nossos dedos como areia; dando-nos a sensação de que viver é algo sem graça, sem sabor, difícil e complicado.

Neste estado, fazemos do momento presente (que consideramos insuportável) apenas um trampolim pra atingir um meio, permitindo que a beleza da vida passe bem diante de nossos olhos sem que a percebamos…

Isto pode acontecer nos grandes projetos, como estudar até ultrapassar nosso limite de saúde física ou emocional para ter aprovação no vestibular pensando em um futuro melhor. Na sequencia, a experiência se repete através de um concurso público (mesmo que a vaga pretendida não seja coerente com nossa vocação profissional), mas que possibilita um bom salário e estabilidade. Em seguida, transformamos estes esforços em uma casa maior ou no carro do ano (para muitas vezes reforçar nossa identidade de superioridade ou aparência social), embora à custa de uma rotina desgastante, frustrante e aborrecedora. Como o ego vive em permanente insatisfação, talvez quando chegar neste ponto, você comece a planejar uma especialização pra conseguir uma promoção.

Em pequena escala, podemos estar lavando louça rapidamente pra assistir TV na sequencia e “descansar” da correria do dia a dia; ou comer enquanto lemos uma revista porque “não temos tempo”…

Resumindo: o presente é sempre chato, mas o futuro guarda grandes expectativas (?!)

Tecnicamente, em ambas as situações, fomos apresentados ao mal moderno chamado ansiedade.

A identidade sofredora

Quem de nós não tem incontáveis eventos passados com lembranças negativas? Se você não conseguir relacionar pelo menos uns 50, então afinal de contas, em que mundo você viveu até agora?

Quando se é criança, passar por traumas não é necessariamente uma opção, algumas coisas simplesmente acontecem sem que tenhamos controle da situação – o próprio momento do nascimento costuma ser traumático! No entanto, carregar este fardo pelo resto de nossas vidas é uma questão de escolha – e aí vem a falha: transformar nossos antigos sofrimentos emocionais em uma identidade – quem você é – e viver de acordo com ela.

Culpa, mágoa e ressentimentos são alguns dos itens que fazem parte da inútil carga de passado que carregamos agora – isso mesmo, nem um minuto antes ou depois, me refiro ao preciso instante em que você lê estas linhas. Talvez sua mente racional não esteja relacionando nada do que está ocorrendo neste momento com qualquer negatividade em específico, mas a informação mal digerida está gravada e circulando em cada uma das células do seu corpo coordenando pressão arterial, batimento cardíaco, ritmo respiratório, entre outros. Aquilo que chamamos de inconsciente está o tempo todo se mostrando, apenas utiliza uma linguagem própria geralmente ignorada; e é seguro afirmar que nossos gatilhos, reações impulsivas, bloqueios emocionais e desequilíbrios físicos não somente pertencem a ele, como são o próprio se manifestando.

Em certa ocasião, uma cliente respondeu a pergunta “quem sou eu” de maneira bastante simplista: meu corpo e meu passado. Obviamente, ela não era feliz com isso, mas transformou seu presente em um reflexo do passado; continuava firmemente apegada aos seus sofrimentos e tinha grande dificuldade de abrir mão disso.

Estava imersa na Identidade Sofredora: fazer de um passado difícil, um presente insuportável.

Abandonando uma ilusão

Ambos os perfis estão presentes em maior ou menor escala em todos os seres humanos. Para saber o seu grau de infecção, basta observar o grau de importância que seu relógio tem pra você: quanto mais você sofre pelo passado ou cria expectativas futuras, mais escravo de sua mente (e de uma ilusão) você é.

Quanto mais sua agenda está cheia de compromissos, quanto mais raramente você tem tempo para o silêncio e interiorização, mais você se encontra afastado da vida…

O que é o passado? Apenas uma lembrança.

O que é o futuro? Um grande mistério.

Mas acima de tudo, a realidade é que não podemos alcançar nenhum dos dois, porque quando o passado aconteceu, era presente. Quando o futuro chegar, será presente. Não dá pra negar: o momento presente é tudo que você tem! Pode parecer um tanto metafórico, mas assim é a realidade da vida: tudo que tenha mais importância pra você do que este momento sagrado, simplesmente não existe…

Mas é possível fazer uma mudança de fundo

Não no futuro, não no minuto seguinte ou daqui a pouco, mas neste preciso segundo. Pra começar, faça de conta apenas que o passado e o futuro não existem – dentro das escolas de Reiki, costuma-se dizer “só por hoje”. Quando acordar, esqueça-se de sua história pessoal e de seus planos futuros. Imagine que você acabou de surgir neste mundo e então, apenas hoje, viva sem condicionamentos, lembranças e expectativas; sorria para todas as pessoas do seu circulo com se fosse a primeira vez que os vê. Simplesmente, aceite a vida e as pessoas como elas são… Mas seja muito franco consigo próprio: cada vez que se pegar em devaneios, retorne, ouça sua respiração, observe o mundo a sua volta sem julgamentos, sinta seu corpo lá no fundo…

Esta é uma prática diária e que nunca é praticada o suficiente. Se vivenciada com plenitude, tem o poder de transformar sua vida profundamente – sem traumas e sem dor… E ainda vai lhe trazer a compreensão da belíssima frase: “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.”

Mas… até que você consiga incorporar esta nova realidade em seu modo de ser, talvez esta EFT possa ajuda-lo a ajustar alguns parafusos:

Embora eu dê muita importância ao meu passado, e tenha feito disso minha identidade pessoal, eu me aceito profunda e completamente

Mesmo que eu foque demais no futuro e me esqueça de meu presente, vivendo em constante ansiedade, eu escolho iniciar uma mudança profunda a partir de agora

Embora eu tenha feito do momento presente apenas um meio para atingir um fim, eu me permito enxergar a beleza da vida em todas pequenas coisas

Eu sempre dei importância demais ao meu passado / embora ruim, ele faz parte de quem eu sou / eu sempre acreditei que minha história pessoal era importante pra mim / mesmo negativo, era a MINHA HISTÓRIA PESSOAL! / quem serei eu sem esta identidade sofredora? / sem este sofrimento, abro espaço para a liberdade / manter o passado vivo é continuar a viver no passado / é seguro me libertar dessas lembranças ruins…

Eu estou sempre esperando por um futuro melhor / meu presente é desagradável, mas é motivador saber que um dia irá melhorar / de que adianta continuar se eu não acreditar nisso? / por quanto tempo vou continuar vivendo de expectativas? / que tal se eu abrisse mão dela e aproveitasse o que eu já tenho? / viver de expectativas não é viver de verdade / sempre há muitos motivos para ser grato agora /

Eu escolho me aterrar no momento presente / o passado não precisa continuar comigo / o futuro virá sempre no seu tempo  / eu posso fazer planos, mas vivo um dia de cada vez / o momento presente é tudo que eu tenho e escolho ser grato por ele / é seguro viver a vida com plenitude e desenvoltura / sou grato pela luz em minha vida /

 

Rafael Zen
Siga-me!

Rafael Zen

Somos seres essencialmente espirituais, vivendo uma experiência material. E nessa extraordinária jornada, tudo vale a pena ser vivido!...
Rafael Zen
Siga-me!

Últimos posts por Rafael Zen (exibir todos)

5 thoughts on “A ilusão do tempo

  1. Bom dia Rafael!

    Obrigado por compartilhar conosco a sua sabedoria e compreensão da vida!
    Realmente estamos com os pensamentos acelerados e nos vemos em um labirinto sem fim. A vida está passando muito depressa e esta cada vez mais esta difícil de compreender que devemos parar pra respirar e ver a vida passando em nossa frente, sem sofrimentos do passado ou angústias futuras. Parece que tudo é urgente, que só você pode resolver tudo sozinha.Eu consigo ver a velocidade dos meus pensamentos, sei que todos os egos querem as coisas no mesmo momento, consigo parar por alguns instantes, mas não é o suficiente, meu dia fica perdido em meio à tantas obrigações e me esqueço de simplesmente parar pra ver o céu ou apreciar as árvores. É lamentável este estado de dormência, mas tenho lutado contra isso com força e fé, pois não quero mais perder esse tempo tão precioso que é o agora!

    Grata,

    Ana Paula Barbosa.

  2. Olá Rafael!

    Tudo bem?

    Muito obrigada por compartilhar conosco, esses textos elucidativos!!

    Gostaria de dizer que, por experiência própria, é possível viver no presente, e, a primeira coisa que ‘devemos’ fazer é, descer do pedestal e perceber que o mundo não vai acabar se não fizermos tudo o que achamos que temos que fazer, principalmente, a salvação da Terra… haha

    Fazendo o que nos cabe e delegando aos demais os afazeres deles, conseguimos perceber que nem temos tantos problemas como achamos que temos. A maioria é dos outros, então, eles que resolvam. Podemos ajudar, mas, não resolver, porque não nos compete, já que cada um tem o seu tempo de entendimento e precisamos respeitar isso, também.

    Estou muito melhor agora que consigo perceber isso, acredito que ajudo mais as pessoas que me cercam, e, principalmente, a mim mesma.

    Te agradeço muito toda a ajuda que me deu enquanto esteve em Curitiba e, agora (é o que importa, né? haha) mandando seus textos.

    Abraços,

    Suely.

  3. Na realidade, tempo é independente e existe em função dele. nós é que brigamos contra o tempo. Queremos que o tempo passe rápido para a gente chegar logo em casa. Vivemos numa neurose igual ao coelhinho de Alice no País das Maravilhas que está sempre com pressa. Ninguém tem tempo para dialogar aquele gostoso papo que faz bem para a saúde mental.. O mal do século trouxe a era dos neuróticos que gostam de brigar contra o tempo. Quer ganhar tempo, o tempo não passa, a hora não chega,… Na realidade, não é o tempo em si. O tempo é uma realidade. Nós é que criamos a nossa imaginação contra o tempo. o homem de negócios vive em função do tempo, para ele tempo custa dinheiro. O neurótico gosta de dar ordem ao tempo. Pedindo a Deus para o tempo passar, mas com o tempo ninguém pode. Tudo tem seu tempo. As coisas acontecem no seu tempo, mas o tempo imaginário faz a gente não contemplar as coisas e pessoas e perdemos oportunidades. No interior as pessoas andam mais devagar, vivem mais e contemplam a natureza.

    1. Compreendo seu ponto de vista. Isso é o que eu chamaria do constante fluir da vida – as coisas acontecem porque precisam acontecer, não tem um relogio ou um cronometro por traz do processo. E quando lutamos contra isso, os problemas começam…

Comente! Sua opinião é importante pra nós!