Diga-me o tamanho dos teus desejos e direi o tamanho do seu sofrimento

Embora esta frase contenha a essência do ensinamento budista, a grande surpresa surge quando conhecemos seu autor: Marco Aurélio, considerado o último dos cinco bons imperadores romanos.

No último artigo, abordei o cerne principal do sofrimento humano: o pensamento compulsivo e inconsciente. Ao ler esta afirmação (que soa muito dura para algumas pessoas), surgem inevitáveis questionamentos: essa “filosofia” (coloquei entre aspas por falta de palavra melhor) pode ser aplicada em qualquer contexto de vida? Invalidez, uma doença ou mesmo a morte são eventos físicos concretos, não são apenas pensamentos!

Isso é verdade. Se você quebra a perna, dói. Se sofre um acidente ou passa por uma cirurgia, a dor é o mecanismo pela qual a sabedoria do seu corpo chama sua atenção para aquela parte que precisa de mais cuidados. E quem iria negar a realidade de uma doença terminal? No entanto, a premissa permanece: sofrer, em qualquer situação de vida, é apenas uma opção.

As queixas e reclamações perante os fatos da vida são a verdadeira (e desnecessária) exteriorização emocional negativa do processo, ou seja, aquilo que concebemos como sofrimento. São maneiras de informar a todos que gostaríamos que a realidade fosse diferente daquilo que é – e chegamos novamente no “X” da questão: o sofrimento ocorre sempre quando gostaríamos que algo estivesse acontecendo – mas não está; quando criamos expectativas sobre outro modo de vida diferente daquele que está ocorrendo neste exato momento; quando desejamos que a realidade seja diferente do que é; quando acreditamos em nossas ilusões pessoais a respeito do próximo e do mundo… mas as coisas são sempre como são – e esta é a verdade!

Qualquer evento, por mais insignificante que pareça, foi moldado por engrenagens invisíveis incompreensíveis pela mente humana. Enxergamos este movimento cósmico através do buraco da fechadura (nossas pequenas percepções) e acreditamos que nossas crenças a respeito de certo e errado são mais sábias que o resto – TODO O RESTO! E qual será o resultado desta luta? Bem, todo mundo sabe onde isso vai terminar: quando lutamos contra a realidade, stress e ansiedade são resultados inevitáveis…

Quem seria você sem sua história?

Se colocarmos 3 pessoas diferentes para viver o mesmo evento (que tanto pode ser uma festa como um velório), veremos com surpresa que cada uma delas irá nos contar de diferentes maneiras o que observaram.

Irmãos de uma mesma família (podem ser até gêmeos) costumam ter diferentes pontos de vista sobre sua infância. Isso acontece porque tudo o que vivenciamos passa pelo filtro de nossas próprias interpretações. E isso significa que o mundo adquire diferentes coloridos em função de quem o vivencia.

Dom Juan, o mestre índio do antropólogo Carlos Castañeda, dizia sempre ao seu discípulo que o caminho do conhecimento exigia que o aspirante abandonasse sua história pessoal. O objetivo é que ele enxergasse a VERDADE, a REALIDADE, tal como ela realmente acontecia – ao invés de permitir que seus filtros interpretassem o ocorrido.

Onde eu quero chegar: nós contamos muitas histórias pra nós mesmos, ouvimos muitas delas de nossos pais ou sociedade e passamos a acreditar nestas palavras e pensamentos como se fossem a mais pura verdade. Em alguns casos até morremos por elas – embora em grande parte não passem de ilusões.

Vamos fazer um teste?

Lembre-se de um evento desagradável em sua vida: uma discussão ou desentendimento ainda não curado servirão bem.

Seja autocritico e observe que, em geral, contamos pra nós mesmos algo como: “fulano fez isso pra mim, depois de tudo que eu fiz por ele, como ele pôde me tratar assim? Foram anos de dedicação, mas ele desconsiderou tudo neste momento. Ainda me sinto decepcionado porque nunca esperava isso… e bla bla bla…”

Se você for honesto consigo mesmo, verá que o fato – a realidade – foi algo parecido com: eu e fulano nos desentendemos. Ponto.

Percebe a diferença? Entre o que de fato ocorreu e aquilo que contamos, existe um abismo de distância. Todos os argumentos, justificativas e narrativas desnecessárias formam em seu conjunto aquilo que chamamos de nossa história pessoal. E se você prestou atenção, talvez tenha percebido que é justamente ali que começam nossos problemas…

Podemos definir a história pessoal como o conjunto de crenças, emoções e suposições a respeito da realidade. No entanto, raramente uma e outra coisa são iguais. Mas a regra é: a realidade é sempre mais generosa do que a história que contamos sobre ela.

Este repertório de crenças molda nosso caráter, nossos comportamentos e definem nossas escolhas – criam uma roupagem chamada identidade. Quando dizemos “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, na verdade estamos apontando para essa identidade, este personagem que criamos para nós. E por estar fingindo ser algo, acabamos nos tornando este algo.

Em 1971, o hoje bem conhecido psicólogo Philip Zimbardo decidiu examinar o que aconteceria se você pegasse estudantes perfeitamente normais e sadios e criasse uma prisão. A proposta foi algo como “Nas próximas duas semanas, alguns de vocês agirão como prisioneiros, e outros de vocês agirão como carcereiros. ” Todos eram colegas da Universidade de Stanford.

Um dia, durante o experimento, uma rebelião foi formada. Os carcereiros começaram a humilhar os prisioneiros. Eles usaram punições físicas. Alguns se tornaram extremamente sádicos. Os prisioneiros começaram a ter colapsos emocionais. Alguns tiveram que ser retirados do estudo antes, e apenas depois de seis dias o experimento teve de ser cancelado.

Duas semanas depois, os estudantes foram entrevistados. Um dos “carcereiros” disse:

“Eu realmente pensei que não seria capaz desse tipo de comportamento. Eu fiquei surpreso… não, eu fiquei consternado ao descobrir o que eu realmente poderia ser… que eu poderia agir de forma tão absolutamente desacostumada a qualquer coisa que eu até mesmo sonharia em fazer […] e não senti qualquer arrependimento. Não senti nenhuma culpa.”

Fingimos ser nossa história mental, e adquirimos comportamentos e resultados coerentes a ela…

Este é o motivo pelo qual políticos bem intencionados quando chegam ao poder transformam-se em “mais um político qualquer” – geralmente com as mesmas falhas que criticavam quando estavam em oposição….

Países “bem intencionados” transformam-se em estados terroristas legais quando aplicam a lei do talião…

Pessoas capazes e competentes passam por todo tipo de revezes na vida quando repetem para si próprios: sou um fracasso, sou um idiota, eu não consigo isso ou aquilo…

Agora observe-se a si próprio: quais são seus pensamentos mais repetitivos? Que frases fazem parte do seu repertório? Que eventos negativos permeiam sua mente com mais persistência? Quais são seus desejos mais persistentes?

Saiba que cada um deles é parte de sua história pessoal, sua identidade – e são a base para a manutenção do sofrimento.

Você tem uma doença terminal e pouco tempo de vida? Bem-vindo ao time, todos sofremos de uma doença em comum: a identificação inconsciente com o pensamento. E todos iremos morrer: hoje ou daqui a 100 anos… pouco importa, nosso destino é absolutamente o mesmo: seremos apenas pó com um nome numa lápide…

Você acredita que sua vida financeira é ruim? Veja só, está contando uma história triste de como merece mais e não consegue… e cada vez que fala sobre isso, sente ainda mais pena de si mesmo…

Você fala sempre sobre seus constantes problemas de saúde? Lembre-se então do que eu mencionei: nos tornamos aquilo que fingimos. O escritor e médico Deepak Chopra menciona um caso muito curioso neste sentido: uma paciente fez exames anuais com ele durante 20 anos, e neste período sempre questionava – “tem certeza que não existe um tumor aí?”. Em certa ocasião, o tal tumor apareceu, ao que ela exclamou satisfeita – “viu, eu disse que ele existia!

Vamos agora voltar ao título deste artigo: nossas histórias são fruto de nossos desejos insatisfeitos, daquilo que gostaríamos que estivesse acontecendo ou de algo que não queríamos que acontecesse – o desejo de alterar a realidade. Quanto mais nos vinculamos a estes desejos, quanto mais nos apegamos aos pensamentos que querem contrariar o momento presente, maior sofrimento teremos.

O problema não é a doença, é o dialogo mental dizendo que seríamos mais livres se tivéssemos saúde.

O problema não é o dinheiro, é o pensamento que insiste em dizer que ele nos trará mais felicidade do que temos hoje…

O problema não é a solidão, é acreditar que precisamos de um companheiro para nos completar…

E cada vez que contamos estas histórias, nós as alimentamos e nos tornamos cada vez mais vítimas impotentes.

E não nos damos conta de que sempre temos tudo o que precisamos – e que o sofrimento só é necessário até você perceber que ele é desnecessário!

Faça o teste novamente: retire seu pensamento – sua história – e perceba a paz que brota IMEDITATAMENTE dentro de você!

Parece contraditório? Quer aprender mais? Aguarde o próximo artigo – e deixe sua opinião!

 

 

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Somos seres essencialmente espirituais, vivendo uma experiência material. E nessa extraordinária jornada, tudo vale a pena ser vivido!...
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3 thoughts on “Diga-me o tamanho dos teus desejos e direi o tamanho do seu sofrimento

  1. Simplesmente fascinante…Adorando a clareza das suas palavras,a compreensao está cada vez mais apurada e sempre confrontando o que ando aprendendo com os meus pensamentos e creças limitantes,desafiante,mas estou muito esperançosa para alcançar a plenitude!!Desejando muito me convencer que o caminho pra isso tambem deve ser prazeroso e gratificante!!!Grata

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