O efeito sombra

No ultimo artigo, falei sobre a guerra como modelo mental. Hoje vamos aprofundar um pouco mais a questão: não buscamos a paz? E acaso é isso que temos visto nos noticiários?

Temos que nos lembrar sempre que a coletividade é apenas o reflexo do indivíduo, e este é o resultado de suas raízes, aquilo que não se consegue ver ou apalpar: seus pensamentos e sentimentos.

Todos falam em a paz, muitos países declaram a paz e a liberdade como norma e conduta, no entanto vivemos em um estado de tensão cada vez maior. Isso acontece porque não basta falar sobre paz, é preciso viver a paz – algo impossível enquanto vivemos internamente em estado de guerra…

Uma vez, durante uma palestra do notável professor espiritual J. Krishnamurti, alguém na platéia levantou para fazer uma pergunta:

— “Quero paz no mundo. Abomino a guerra. O que posso fazer para ajudar a alcançar a paz?”

— “Pare de ser a causa da guerra” — respondeu Krishnamurti. O espectador ficou perplexo.

— “Não sou a favor da guerra. Só quero a paz.” Krishnamurti sacudiu a cabeça.

— “Dentro de você está a causa de todas as guerras. É sua violência, oculta e negada, que conduz às guerras de todo tipo, seja dentro de seu lar, contra outros da sociedade ou entre nações. “

Efeito sombra é um termo cunhado pela escritora norte-americana Debbie Ford e que determina aquele lado em nossa psique que não queremos ver, que resistimos por aceitar que existe, nossas negações, fraquezas e vícios ocultos. Nossas emoções e pensamentos negativos fazem parte desta sombra. Dentro dela encontramos a origem do mal do mundo.

Mesmo negada, a sombra pode ser vista na mídia vestida de religiosos envolvidos em pedofilia, transformada em políticos cheios de discursos polidos e palavras articuladas legislando apenas em causa própria, ou ainda em países inteiros festejando nas ruas a morte de seus opositores. Por mais que cada um destes esteja pregando a paz, está vivendo de forma contraditória.

Em nossas vidas, esta mesma sombra pode ser observada diariamente: quando o marido busca pornografia enquanto a mulher e filhos aguardam em casa, quando buzinamos com raiva do trânsito mesmo que todos os envolvidos naquele instante sejam tão prisioneiros do momento quanto nós, quando alardeamos nosso regime alimentar mas fugimos sorrateiramente até a confeitaria, quando nos afiliamos a algum tipo de movimento “contra isso” ou “contra aquilo” e criamos oposição a outro grupo ou forma de pensar…

É a sombra que transforma alguém tido como ótimo profissional e amigo num tormento para a família – seja através de vícios ou agressividade. Ou ainda – e o que é mais comum – quando projetamos nossas falhas, criticamos e julgamos aos demais.

O termo Sombra, mais uma vez, denota nossa negatividade, nossas dores e mágoas ocultas, nossas falhas de caráter, nossas fugas e inadequações. É a prisão onde encarceramos aquilo que é feio e tido por inaceitável, é para onde vamos quando “deixamos pra lá” ou “empurramos a sujeira pra debaixo do tapete”. A sombra é nosso próprio ego, a fuga da Luz da Consciência…

Mas estes sentimentos, como um cão raivoso e acorrentado, estão sempre ecoando em nossa psique – e aguardando o momento de se libertarem. Quando isso acontece, ela se torna a causa das brigas impulsivas, aquelas em que dizemos – “desculpe, falei sem pensar”. Ou da bebedeira seguida de constrangimento, ou de qualquer outra atitude que nos provoque um profundo arrependimento.  “Nunca mais farei isso” – torna-se um chavão que, embora sincero naquele momento,  não pode ser sustentado por muito tempo até que exista um verdadeiro trabalho interior…

Mas seus ecos e latidos também são perceptíveis: é a mola secreta de todos os conflitos e interesses mesquinhos. É ele que está por trás da “Guerra contra o terror”, nos bastidores dos noticiários e novelas da TV (tristes retratos da condição humana), na falta de empenho em mudar nossos hábitos em busca de algo mais saudável, e na confortável sensação que nos aprisiona em nosso modo doentio de viver…

Essa energia negativa também é a responsável pelo nosso impulso de separação, a ilusão dos nossos sentidos que faz com que acreditemos que somos “eu e tu”, “eu e o mundo”, “eu e a vida” – a origem da mentalidade “nós versus eles”: meu país, minha religião, meus amigos e inimizades, meus interesses sempre superiores aos “outros”…

A solução: a aceitação

A sombra é um eterno processo de repetição de nossas negações, um padrão negativo e destrutivo criado por nossos próprios condicionamentos. Ela não irá se desintegrar espontaneamente, é preciso assumir a responsabilidade e realizar um esforço consciente pra isso.

Como seres humanos, somos criaturas ambivalentes. Temos visto inúmeros exemplos de comunidades inteiras se movimentando para ajudar a outras (até desconhecidas) em casos de calamidade e emergência. Essa é a nossa verdadeira natureza, hoje ofuscada pela distorção ilusória criada pelo ego.

Vivemos um momento único em nossa história! Estes mesmos conhecimentos, antes limitados a pequenos grupos, hoje podem ser obtidos em qualquer livraria ou sites da internet. Já não é possível justificar nossas falhas em função da ignorância.

Mas não podemos nos colocar em guerra contra nós mesmos – este é outro eco do velho cão raivoso. Faz-se necessária a aceitação, a porta de entrada para a compreensão.

Aceitar-se a si próprio é a ausência de críticas e culpas sobre nossos impulsos sombrios. É algo como: “ok, você está aí, eu estou aqui, como sairemos dessa situação juntos?” Lembre-se que esta parte também é sua, tem algo de sua consciência (antes negada) dentro dele.

Conhecer nossas fraquezas permite que elas se transformem em fortaleza: não há sombra que resista diante da luz, e se ela ainda existe é porque nunca lhe foi dada a devida atenção. A partir daí, podemos seguir alguns passos simples:

1. Reconheça sua sombra quando ela trouxer negatividade para sua vida.

Lembre-se sempre que estamos numa jornada eterna, e cada passo é único dentro dela.

2. Abrace e perdoe sua sombra. Transforme um obstáculo indesejado em seu aliado.

Aceite, observe e aprenda – cada erro nos brinda com uma oportunidade singular de crescimento.

3. Pergunte a si mesmo que condições estão dando origem à sombra: estresse, anonimato, permissão para causar danos, pressão dos colegas, passividade, condições desumanas, uma mentalidade “nós versus eles”.

Você não estará neste momento sendo afetado pelos ecos de seu passado?

4. Compartilhe seus sentimentos com alguém em quem confie: um terapeuta, um amigo de confiança, um bom ouvinte, um conselheiro ou confidente.

Utilize técnicas energéticas, com destaque para a EFT como forma extremamente eficiente de limpeza emocional. Você irá se surpreender com o que irá encontrar…

5. Inclua um componente físico: trabalho corporal, liberação de energia, respiração de ioga, cura interativa.

Existem incontáveis pranayamas e outros exercícios que podem ser realizados em casa sem a necessidade de acompanhamento especial. Respirar é viver!

6. Para mudar o coletivo, mude a si mesmo — projetar e julgar “os outros” como malfeitores só aumenta o poder da sombra.

Quer mudar o mundo, comece por você!

7. Pratique a meditação, de modo a experimentar a consciência pura, que está além da sombra.

Este ponto é fundamental: viver o estado da presença pura e do não-pensamento traz mudanças profundas em nosso modo de perceber a vida.

A sombra tem um papel fundamental e decisivo em nosso crescimento: é aquela que nos treina e nos prepara para o caminho da consciência. Espiritualmente falando, não seria possível reconhecer a luz se nós antes não conhecêssemos a escuridão. E quanto maior sua sombra hoje, maiores as possibilidades com que o Universo lhe brinda!

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Rafael Zen

Eu sou fascinado pelos mistérios e conexões entre o corpo, a mente e a consciência. E o que poderia existir de mais transformador do que o conhecimento de si mesmo?
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